28.2.26

28 de fevereiro de 1986 - um dia muito especial!!!

Hoje é um dia especial. Na verdade, todos os dias o são, mas alguns carregam um significado especial.

A 40 anos, naquele distante 28 de Fevereiro de 1986, enquanto o então presidente, José Sarney, lançava o Plano Cruzado, eu saia da F. L. Smidth Indústria Pesada S/A, na Av. Dinamarca nº 1, em Varginha-MG, com algumas folhas de papel assinadas, de grande valor: era o meu primeiro contrato de trabalho como Analista de Sistemas - Especialista em Redes!

Eu, então no auge dos meus recém completados 20 anos, professor de Eletrônica Digital, Telecomunicações, Televisão, Microcomputadores e Programação de Computadores para os cursos "Técnico em Eletrônica" e "Técnico em Processamento de Dados" da Escola Técnica de Eletrônica de Varginha (ETEV), havia concluído o Curso Técnico de Eletrônica a pouco mais de dois anos (1983), e realizado um curso de Eletrônica Digital e Microprocessadores (por correspondência) pelo CEDM de Londrina-PR, e trabalhado com meu ex-colega de ETEV Inácio de Carvalho Loyola Garcia e seu sócio, Carlos, em uma empresa parceira da Informata, de Alfenas, que revendia computadores da Prológica -  entre os quais o "famoso" CP-500.

Trabalhando como técnico de instalação e manutenção daqueles computadores, viajava literalmente noite e dia pelo Sul de Minas, de moto, com uma mochila nas costas, com as ferramentas e, muitas vezes, com drivers de disquetes, placas mãe e outros componentes. Nessa época já conhecia programação em Assembly do Z-80, e interessei-me pelo Basic, aprendendo "de orelhada", de curioso e na base da tentativa e erro... Quando a empresa dos dois fechou, eu  "herdei" alguns clientes, tanto para a manutenção dos computadores quanto para a manutenção, a evolução e até o desenvolvimento de novos softwares! Feitos heróicos dessa época incluem uma rotina de ordenação usando o Shell-Metzner (uma derivação do Shell Sort) que criei para o sistema da Livraria do Estudante, criando um índice alfabético para nomes dos livros e nomes dos autores e assim permitindo a consulta instantânea dos livros por essas informações. Detalhe: o "sistema" rodava em um CP-500 048d, com 48 KB de memória RAM e dois drives para disquetes 5 e 1/4 com capacidade de 480 KB cada um, e administrava o acervo e o estoque com mais de 24.000 títulos, e fazia a ordenação em menos de duas horas! E também uma "rede" entre computadores de lojas de móveis em Boa Esperança/MG, fazendo a comunicação por via serial (RS-232) com modens 1200/75 e ramais dedicados (linhas ponto-a-ponto de telefonia, autoalimentadas por baterias!), permitindo a gestão de estoques centralizada.

Nesse ponto da "carreira", conheci a Polymax Computadores, um fabricante ousado que começava a fornecer um "STORAGE" - o "POLYNET", que podia ser acessado por vários computadores por meio de um cabo coaxial (rede ARCNET), permitindo assim a criação de uma "rede" com computadores POLY 201 DP compartilhando um "winchester", apelido dos caríssimos discos rígidos da época, de 5 a 20 MB (isso mesmo, megabytes!). Esse meu contato fez com que eu, que já me aventurava gravando dados da memória dos TK-82 e CP-200 em fita cassete (arquivos de dados!), ficasse interessado nessa tal de "rede com cabos coaxiais", e começasse a estudar o assunto e até mesmo a oferecer a Polynet para meus "clientes" de então... Um belo dia, o saudoso e querido Prof. Wanderley Bueno de Oliveira, diretor da ETEV e meu chefe, chamou-me para dizer que a empresa onde o irmão dele, Valdir Bueno de Oliveira - o Didi, trabalhava como Contador, estava precisando de ajuda para implantar uma "rede" de computadores e um novo sistema, e que ele havia me indicado para essa oportunidade.  

Fiz algumas reuniões com pessoas da F. L. Smidth - em especial com o Sinibaldo, diretor financeiro, e depois com o Jens Petersen, diretor dinamarquês da unidade de Varginha, e encarei o desafio: implantar uma rede local com Novell (1.18!!!) e microcomputadores IBM-PC, e um sistema de PCP da Norden, subsidiária da F. L. Smidth na Noruega, escrito em um tal de "Dataflex" (que, segundo o Jens Petersen, era a linguagem Pascal, da qual eu mal ouvira falar - mas tinha a promessa de receber um treinamento na INFOCOMP, em São Paulo, que representava a Data Access - criadora do DataFlex - no Brasil). Concordei com o desafio, assinei um contrato com valor hora em ORTN (que me garantiria uma pequena "fortuna" por mês, trabalhando de 200 a 240 horas por mês!!!) e sai de lá, naquela manhã de 28 de fevereiro de 1986, alegre, saltitante, e temeroso de não dar conta do desafio!!!

Com as voltas que o mundo dá, o Plano Cruzado foi lançado, a ORTN ficou congelada e foi substituída pela OTN (outra das muitas "pseudo moedas" de nossa história...) e eu fui tragado por um turbilhão: a F. L. Smidth tinha sistemas em Basic CPM-80 que rodavam em máquinas DISMAC Alfa 2064 - com 64 KB de memória e quatro unidades de disquetes de 8" que armazenavam 960 KB cada um - quase 1 MB!!! Eram esses computadores que rodavam os sistemas de Almoxarifado, Estoques e Compras, de Finanças e Contabilidade, e também a Folha de Pagamento. A empresa que produzira os sistemas era de Belo Horizonte e, sobrecarregada pelas demandas de conversão para o Plano Cruzado, passou a cobrar altíssimos valores por hora pelo técnico enviado para realizar os trabalhos, além de passagens aérea e estadia. Então fui "convocado" para fazer as conversões, ao invés do trabalho original... Afinal, eu conhecia BASIC (e cobrava bem menos)!

Foram mais de dez meses de puro estresse, trabalhando até vinte horas por dia, finais de semana e feriados... lembro-me de cochilar nos sofás da recepção enquanto rotinas de conversão de arquivos rodavam por horas naquelas incríveis "carroças" da DISMAC... Lembro-me também dos motoristas e vigias da F. L. Smidth indo levar-me para a ETEV para dar aulas às 18h30 e depois buscando-me, lá pelas 23h, para continuar os trabalhos... E, em paralelo, corria o dia todo para implantar a tal rede Novell e converter o sistema da NORDEN... Detalhe: o sistema usava o idioma Norueguês, e não Dinamarquês, e ninguém na empresa conhecia nem o sistema nem o idioma! Para ajudar-me, trouxeram um dicionário de Norueguês / Português editado na Noruega...

Bem, isso já virou um textão digno do meu livro de memórias, mas não posso encerrar sem mencionar as coisas mais importantes que esse fato trouxe. Na F. L. Smidth conheci meu grande amigo irmão camarada Ênio Carvalho, de saudosa memória, que viria a tornar-se meu concunhado: ele foi o "cupido" que não se cansava de falar da irmã de sua namorada Silvana, a Rogéria - que, à época, cursava Processamento de Dados na ETEV, mas na turma da manhã (eu dava aulas somente à noite) - e que desejava fazer estágio na F. L. Smidth. Insistiu tanto que funcionou: entrevistei-a, foi contratada, e de estagiária assumiu o "cargo" (ou carma?) de minha esposa e mãe de nossos quatros filhos... Ela ainda não desistiu de me processar por assédio, mas eu ressalto que o crime já prescreveu! 

Também na F. L. Smidth conheci o Paulo Eduardo Tavares, um amigo e profissional de grande valor... O Christian Aarup Gregersen, o Henning Tage Rasmussem, o Fábio Feijó e tantos outros, com os quais aprendi muito! E conheci o César Roberth de Faria, meu grande amigo, que influenciou totalmente minha vida: foi ele quem divulgou meu "conhecimento" de Dataflex em São Paulo, razão pela qual deixei a F. L. Smidth em 1990 e fui trabalhar na Ryal Systems, em São Paulo. De lá, também em função do Dataflex, fui para Campo Grande, atuar na Comercial Pereira de Alimentos. Voltei para Varginha em 1993 e o César me levou para a Nexo Informática, de Curitiba, em 1995, pela qual atuei nas prefeituras de Uberlândia, Diadema e Caxias do Sul, e depois Curitiba, trabalhando com um sistema de gestão pública em Dataflex (o SIAP). Lancei âncoras em Curitiba em 1996, e desde então vivo por aqui, agora com os filhos, genro, noras e netinhos (3, e aumentando em breve)... Mas isso já é parte de outro capítulo - ou outro livro de memórias!

Minha esposa Rogéria diz que eu sou nostálgico e saudosista. Eu concordo, mas complemento: eu curto a História - a da humanidade, a dos grandes homens, a dos amigos e parentes, até de desconhecidos, e a minha, em especial. E esse capítulo, esse dia, 28 de fevereiro de 1986, é um marco na minha história! Um "turning point" que definiu meus caminhos, e a da minha família que, sem ele, talvez nem existisse.

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